
Eu estava sem vontade de fazer um post hoje, mas assistindo ontem um programa local (Rota cidadã 190), em que o repórter dizia que o íncice de criminalidade na Região Metropolitana de Belém aumenta a cada dia, resolvi falar um pouco da realidade que
afeta a capital paraense e o restante do país. Ando esta cidade de cabo a rabo e o que o repórter disse só veio confirmar o que eu vejo durante as minhas andanças.
Como todos sabem, no Brasil a violência, sobretudo urbana, está no centro do dia a dia e ocupa as manchetes dos jornais. Ela é assunto de especiais para a tv e, mais que tudo, assombra as consciências, de tal forma é ameaçadora, recorrente e geradora de um profundo sentimento de insegurança. Essa evolução é sintoma de uma desintegração social, de um mal-estar coletivo e de um desregramento das instituições públicas.
Assim como a Colômbia, lamentavelmente conhecida pela carência de um Estado forte e sobretudo pelas chacinas perpetradas pelos cartéis da droga (Medellin, Cali), entre os países de colonização européia, o Brasil é o mais atingido pela criminalidade assassina. O que se conhece é apenas a ponta do iceberg.
A violência oculta atrás dos muros das casas, a violência sexual, as rixas familiares e as crianças espancadas só são conhecidas muito parcialmente, mesmo em caso de falecimento das vítimas; as circunstâncias das mortes são, então, esmagadas sob uma capa de silêncio. Além do mais, o controle pelo registro civil continua a ser falho, principalmente nas zonas rurais mais pobres ou dentro de zonas urbanas de instalação recente (subúrbios, favelas e cortiços). O enterro oficial tem um custo com o qual as camadas mais desfavorecidas da população não podem arcar.
Como qualquer visitante que sou, fico chocado pela obsessão com a insegurança que atinge a totalidade dos habitantes das grandes cidades brasileiras. Aqui em Belém, por exemplo, casas vigiadas, cercadas por grades, protegidas por seguranças, são igualmente sinais desta desconfiança das classes burguesas com relação às classes ditas perigosas.
Tudo se passa como se os brancos tentassem reproduzir enclaves europeus, evitando o contato com descendentes de escravos ou com os imigrantes, fugindo da miséria no seu Nordeste natal. Muitos são os que ousam falar de um apartheid social pois, diante de tal segregação social, é inevitável lembrar daquela que existe em países com forte tensão entre negros e brancos, como os EUA, ou a África do Sul.
A violência gera o medo, mas este gera igualmente violência. Trata-se então de um círculo vicioso que se instala, uma psicose coletiva que é preciso romper a qualquer preço e cujos únicos beneficiados são certos lobbies da segurança, como as firmas de vigilância, as milícias privadas, as companhias de seguros, os esquadrões da morte, etc.
Assim, são atingidas a imagem e a reputação internacionais do Brasil. Esse imenso país de sonho e de riquezas fabulosas não consegue "decolar" como prometido. Muitos responsáveis estrangeiros que nele apostaram guardam da experiência uma certa amargura, tal é o desperdício, a corrupção e o corporativismo que neutralizam a iniciativa e o esforço de inovação.
Abraços.